quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Decifra-me

Ela limpava uma sereia com uma faca de limpar peixe. Em algum momento, ela me dizia, quando ela terminasse a tarefa, a sereia se transformaria em um peixe. Disso eu sabia. Um peixe comum pronto para preparado. A sereia não era da cor azulada. O cabelo era louro e liso e as escamas eram na cor coral. Bem reluzentes. A sereia já estava abatida mas ainda viva. E minha mãe continuava trabalhando na sereia como se aquele fosse um trabalho rotineiro. E era. Era como se ela estivesse limpando um porco, um peixe comum, uma galinha para servir á família. A sereia olhava pra mim. O olhar de alguém que sabia que seria morta. Nela caía único o ponto de luz da sala.

Ela conversava comigo enquanto trabalhava. Não entendia minha cara de assombro diante da situação. Era para eu já estar acostumada. Eu notava dois cortes nos braços de minha mãe. Os cortes tinham cerca de 5 cm e pareciam ter sido feitos a mais ou ou menos 3 dias. Estavam abertos. Mesmo sem perguntar, eu sabia que os cortes provinha do fato dela labutar na casa todos os dias. Tinha se cortado trabalhando. A casa era de adobe e eu não via nenhum móvel. Somente minha mãe com uma faca de limpar peixe, tratando a sereia, no chão de terra batida. 

Eu sentia que ela era minha mãe, mas ela não se parecia com minha mãe verdadeira. Ela tinha cabelos curtos, a pele fustigada pelo sol e vestia um vestido sem forma no corpo, encardido. Era magrinha. Os ossos saltados. 

2 comentários:

  1. desde a eleição eu tenho escutado, em looping, "A Novidade". Sei lá, achei pertinente te contar

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