quinta-feira, 9 de junho de 2016

Nunca sorri

A cidade que  nunca sorri existe e fica descendo a serra. Muito longe. As pessoas que lá vivem tem a tez manchada e a expressão carrancuda. Eles não tem motivos para sorrir. Quem conseguiu fugir da cidade que nunca sorri, faz questão de esquecer de onde veio. Eles criam uma outra identidade e negam até a morte que vieram da cidade que nunca sorri.

A cidade que nunca sorri nunca foi bem cuidada. Nem mal cuidada. A cidade pertence a ninguém. Nem desprezo merece. A cidade não tem prefeito, não tem luz de hidrelétrica, não tem quintais onde crianças brincam de roda. Tem cachorros magros e cheios de ferida e gatos. Todos abandonados.

A cidade violenta. Nela, um homem velho tombou no meio da praça. Uma faca enfiada no peito. Nela, uma mulher fora estuprada entre o cemitério e a estrada de terra. Na quebrada do inferno. Nela, uma senhora cega abriu a porta e um facão lhe cortara toda. Nela, dois bêbados moribundos encharcaram a terra com sangue. Sangue seus. Nela, adultos e meninos não sabem brincar. Não sabem empinar pipa nem jogar futebol de meia. Os professores, da única escola, tem saudades da palmatória. Eles ensinam o que vem a ser a palmatória. Eles se deleitam. Eles não conheceram outra coisa senão a palmatória.

Mulheres prenhas morrem, o ventre aberto, no sol inclemente que tece a cidade que nunca sorri. Homens de bem estupram meninas. As meninas limpam as casas dos homens de bem. Banham seus filhos. Faz sopa para seus filhos. As esposas odeiam essas meninas. Dizem que elas são salientes. So pensam em saliências, enquanto se esfolam limpando casa alheia e aguentando beliscões dos patrões.

Sorrir nesta cidade significa mostrar os dentes. Só um desavisado mostraria os dentes por lá. Ou os maiorais donos de fazenda. Os maiorais sorriem em outras plagas. A cidade que nunca sorri não merece o riso dos maiorais. A cidade merece o pó seco que chega da serra. O pó, carregado de veneno, que os maiorais jogam em suas fazendas.

Um dia, para alivio de todos, a cidade que nunca sorri desaparecerá.


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