sábado, 23 de abril de 2016

Conto um conto

Nasceu assim nas caatingas, comendo crueira, tangendo os bichos na roça, tomando banho na agua salobra. Pegando agua de muito longe. Agua ruim que não deixava o sabão espumar. Apanhava do pai alcoólatra. Todos os irmãos e a mãe apanhavam do pai alcoólatra. Dormiam amontoados em cama de capim. A mãe enchia e costurava o colchão de capim. Ajudava a mãe a limpar tripas de gado e fazer lingüiças. Ajudava na feitura da coivara. Na fazedura de farinha. Tangia os bois, as galinhas, os bichos do mato pro mato. Acendia o fogo de madrugada no fogão a lenha. Jogava o borralho no monturo.

Um dia foi morar na cidade na casa dos tios. Ganhou apelidos sobre sua aparência. Magra e judiada. Cheia de perebas.  Seus cabelos crespos. Foi apalpada pelo primo. Muitas e muitas vezes apalpada pelo primo. Foi xingada de vagabunda pela professora. A professora adulta. O primo adulto. Ela uma criança sem nada. Sem mala, sem brinquedos, sem os pais, sem uma sandálias de arrastar que não fosse furada.

Foi embora novamente. Foi embora para a cidade grande ser domestica. Não que ela sabia que seria domestica na casa onde ela viu pela primeira vez um armário cheio de cristais. Pela primeira vez ela viu um aparelho de tv. Perfume. Revistas em banca de revista. Não recebia dinheiro para ser domestica. Ela não era domestica. Ganhava roupas e o direito de estudar a noite. Tinha sorte. Com tanta sorte, decidiram que ela poderia limpar duas casas por semana. Ainda assim não era domestica. Era uma adolescente que não sabia de nada. Não tinha tempo de brincar com Playmobil. As meninas da casa da frente brincavam de Playmobil. Não sabia como se comportar com os peitos que estavam abotoando. A mulher disse para ela ter vergonha na cara. Os peitos aparecendo sobre a blusa. Ela não tinha nada. Tinha propaganda da Valisere e o Meu Primeiro Sutiã. Ela não tinha nada.

No dia do seu aniversario levou uma surra. Tinha esquecido de entregar as chaves da outra casa para a mocinha filha da dona da dona da casa. A dona da casa achou por bem lhe bater. A mocinha ria enquanto ela levava chineladas. Anos depois recebeu um obrigada da patroa que  não era patroa. Obrigada por ter me ajudado a criar meus filhos. Não lembro se te paguei.

Resolveu morar noutra cidade. Foi a única cidade em que ela conseguiu não ser domestica. Ela me contou para contar por aí que não é nada bom lavar merda dos outros. Não é nada bom e não faz bem algum limpar privada para os outros. Ela mandou eu gritar isso tudo por ai!

Ja adulta, quase colocou o primeiro contracheque em um quadro e pendurou na parede da quitinete. O primeiro contracheque. A primeira vez que lhe assinaram a carteira de trabalho.

Lia de um tudo. Soube sobre menstruação, masturbação, marginalização em dicionário vários. Ficou desempregada. Alguém apareceu para ajudar. Alguém pagou para ela estudar para o vestibular e para se inscrever no vestibular. Ela estudou por um ano inteiro. Ela se desesperava toda vez que via que todos que entravam na universidade, nos cursos tidos como nobres. Medicina, direito, agronomia, era pra gente bonita. Bonitos significava ser branco. Todos brancos. Todos felizes? Todos brancos e felizes. Quem não leva surra de chicote sempre pode ser feliz.

Entrou na universidade e aquele foi o dia mais feliz de sua vida. Graduou e aquele fora o segundo dia mais feliz de sua vida. Comeu no bandejão da faculdade. Morou na Casa do Estudante. Nunca fora tão feliz. Ninguém lhe batia. Foi a festas. A saraus. Descobrira-se bonita. Recebia muitos convites. Aquele a convidou para vender o corpo. Ela estava sem dinheiro. Não o fez. Vendeu outras coisas trabalhando no mercado. E foi embora para outra cidade.


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