sexta-feira, 29 de maio de 2015

Listadas como vadias, punidas por serem mulheres

Flavia Penido postou hoje:

"Vou bater nessa tecla sem parar: enquanto pais ajudarem a reforçar a ideia de que menina sexualmente ativa "não presta" e que menino sexualmente ativo é "pegador", enquanto tivermos o pensamento que quando vazam fotos íntimas a culpa da mulher que "não devia ter se exposto" ao invés de se culpar quem quebrou um pacto de sigilo, isso não vai mudar. Então, vão ali no cantinho e pensem: o que eu estou fazendo para que isso mude?"


A discussão está aqui, no artigo da Jarid Arraes. 

"A sexualidade tem dois pesos diferentes para homens e mulheres. Esse não é um fenômeno recente, mas se perpetua baseado na lógica misógina que objetifica a mulher. No último dia 27, uma matéria do R7 exibiu a situação terrível que as meninas da periferia de São Paulo estão vivendo: em listas chamadas de “TOP 10″ , meninas consideradas “vadias” são expostas nas escolas, nas redes sociais e até nas vizinhanças. Várias meninas deixaram de frequentar as aulas e já houve pelo menos 12 tentativas de suicídio. Embora existam também listas para os garotos, aqueles que entram são considerados “campeões” ou “pegadores”, enquanto as meninas são vistas como “vadias” e “putas”.
Casos como o das listas “TOP 10″ denotam que muitos homens não gostam de sexo, mas sim de humilhar e violentar mulheres. O prazer de muitos deles não está em dividir um ato sexual com uma mulher que considerem atraente, mas sim em dominá-la e exibi-la como uma coisa que não merece respeito.
Isso não se trata de uma questão individual; nossa cultura ensina o tempo inteiro aos homens que eles devem agir dessa forma, humilhando e objetificando as mulheres. Esse ensinamento está nas músicas, nos filmes, na programação da televisão e até mesmo na igreja. Sempre que um garoto escuta que mulheres que fazem sexo são “fáceis” ou “vadias”, sempre que um menino liga a televisão e vê mulheres reduzidas ao papel de corpos para exibição, ele aprende que o seu lugar é o de predador e explorador do corpo feminino.
Por isso, quando adultos, esses são os mesmos homens que publicam fotos íntimas das mulheres com quem transaram – e, ao fazerem isso, eles estão apenas seguindo o roteiro aceito pela sociedade. Afinal, esses homens acreditam que precisam exibir suas “conquistas”, mostrar que são homens que “comem” mulheres e dominam as “vadias”. Mas isso vai além: em muitos casos, o homem não quer apenas propagar o seu feito, mas também marcar a mulher para que ela não “sirva” a nenhum outro. Com a reputação destruída e sendo ele o responsável por essa destruição, a mulher é finalmente punida e ele vira o herói dos seus amigos. É alarmante que um ato tão doentio seja visto como natural e socialmente aceitável.
Essa realidade não é um mero “generalismo feminista”, mas sim uma epidemia que vem provocando a morte de milhares de mulheres. Meninas como as que estão nos “TOP 10 Vadias”, mulheres que têm seus vídeos e fotos vazados e também as que são estupradas, todas elas são vítimas de um mesmo sistema que beneficia os homens, que são celebrados e não sofrem qualquer consequência moral quando têm gravações e fotos íntimas vazadas ou aparecem em listas como o “TOP 10″.
Esse problema precisa ser diretamente nomeado para que possamos enfrentá-lo. Enquanto se coloca panos quentes, as vidas de milhares de meninas e mulheres são destruídas; e enquanto os homens viram as costas para a questão e não confrontam seus amigos por suas práticas misóginas, mais mulheres continuam a ser violentadas e expostas. É mandatório que tomemos nossa responsabilidade nesse quadro – não podemos mais ser ou tolerar uma sociedade que odeia as mulheres."

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