sexta-feira, 27 de julho de 2012

Disrupting the normal life

Você começa o dia com esse e-mail. Não se pode esperar muito de um dia que começa assim. Você fica felizinha ,só um tantinho, por morar bem longe do local onde essa lambança está se desenrolando. 


'Eu vou tentar explicar a situação em que nos encontramos neste momento. Christiane F., está vendendo e usando drogas. A polícia veio procurar por ela em casa. A policia estava monitorando ela a algum tempo e a encontrou aqui em casa. Na bolsa dela tinha drogas e quase fui presa também. A quantidade era pouca e passava longe de ser tida como tráfico. O policial fez um acordo com ela. Ela mostrou a casa do traficante e em troca, não foi levada para algum instituto correcional. Mas você sabe que fim leva os alcaguetes, né? A morte. A mãe dela veio do interior para levá-la de volta. Ela não quis ir. Ela prefere morrer aqui. Ela está proibida de vir a minha casa e tem de passar a 500 metros de onde eu moro. Fui ao Conselho Tutelar de Goiânia. Expliquei a situação e pedi para que a fossem procurar no barraco onde ela está morando e entregá-la ao CT lá do interior, que ela corre risco de ser assassinada, etc.Deixei bem claro para a mãe de Christiane F., que ela não é mais minha responsabilidade. Que eu não tenho culpa de ter trazido ela para Goiânia, que estou com medo dos traficantes. '

A autora do e-mail, minha so naive friend, só atendeu a um pedido de um conhecido. Ele, o conhecido, queria uma moça do interior para olhar as crianças dele. Bem típico - do interior, obediente, só para cuidar das crianças e fazer mais algum servicinho light do tipo, lavar, passar, fazer uma comidinha, etc. De preferência aquelas que ainda não estão enrabixadas com namorados. Para morar no emprego. 

Eu fiz meu trabalho de conclusão de curso sobre trabalho doméstico infantil. Eu não vou entrar em detalhes aqui, mas posso assegurar que eu conheço todas as manhas desse negócio. TODAS. Todo o papo furado de que ela é como se fosse da família, eu até pago plano de saúde para ela, etc


Eu conheço a adolescente em questão, pois, olha, mãe é professora lá no interior e a gente se fala quase todos os dias. E daí a gente ficou muito puta quando outra criaturinha disse que Ei, aqui é assim mesmo. Aqui não é igual aos EUA, Mari! - Onde eu via escrotidão, alguém via normalidade. Onde eu tentava convencer dizendo que a familia da menina tinha a Bolsa Familia. A  menina é timida e avoadinha. a menina não deveria sair de perto da familia. A menina não está em situação de risco. E, se alguém quizesse de fato levá-la para a cidade com mais recursos, que o fizesse tal qual uma mulher maravilhosa um dia fez comigo. E eu estava longe de estar em situação de risco. O maior risco que eu corria naqueles dias era eu mesma e a comida horrorosa do RU. 
;
Ninguém ligou se eu estava preocupada com essa transição de menina do interior para menina babá - empregada doméstica. 

No final das contas, ela não conseguiu trabalhar na casa de familia por mais de 3 meses. Um dia, ela  se trancou no quarto e se recusou a sair de lá até que prometessem a ela que ela poderia ir para onde bem quisesse. Mas alguma luz cintilante a inebriou e ela não quis voltar para o interior. E agora?

4 comentários:

  1. Credo, Mari. Nem sei o que se faz numa situação dessas.

    ResponderExcluir
  2. Bom, sobre esse trabalho infantil, uma coisa é certa, ao invés de cuidarem ( entenda-se uma sociedade que não viola seus direitos)de VERDADE dos jovens, oferecem tão pouco a eles, o que os leva a "trabalhar" na informalidade ou na criminalidade. Claro, com todos os apelos de uma sociedade de consumo, com o choque cultural, dá uma piradinha mesmo. Sorte que ela não estava traficando, pois eles criam essa ilusão que assim irão arrumar "dinheiro p gastar".É, comecei a ler seu blog por causa da frase de Bourdieu, que eu acredito ser a mais pura verdade e que tb se aplica a esse caso. Trabalho com adolescentes em vulnerabilidade social, e há muitas histórias para contar. O pior disso tudo é q a cada ano o número é crescente...Agarro-me as minúsculas vitórias do cotidiano. Bjs

    ResponderExcluir
  3. Olha, vou falar: não me admira saber que é em Goiânia. Pq por aqui é tudo assim. Nunca entendi essa cultura de pagar babá pra ficar com os filhos. Isso já está errado. Ainda pegar ADOLESCENTE pra fazer isso? E agora colocá-la pra fora, pq se envolveu com drogas?

    Agora, não tem isso de 'a menina não qr voltar pro interior' não. A mãe tem q levar e ponto final. Me fala onde ela tá e onde ela deveria estar (casa dos pais) que eu busco e levo na hora. Onde já se viu?

    ResponderExcluir