segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mimimi e aí?

Estou a 3 anos nos EUA. Ainda estou em fase de adaptação e, eu sei que isso soa tão mimimi mas, a adaptação de um expatriado depende de zilhões de fatores. No meu caso tem os pontos positivos de que posso voltar ao Brasil se as coisas não derem certo por aqui. Eu considero isso um ponto positivo pois muita esposa que vai morar no país do marido não tem essa opção de até poder visitar o país de origem regularmente. Não tem nem condições de acabar um casamento marromeno por exemplo, e voltar ao país de origem com emprego garantido e tal.

Eu nunca gostei dos EUA. Como disse minha amiga Keyla - eu não queria ter que gostar dos EUA. Minha familia, na parte que tem um pouco mais de recurso, viaja para a Europa, faz os cursos na Europa e quem não tem recurso nenhum para viagens internacionais, sonha em visitar a Europa. Ha rumores de que mãe n. 2 e irmão veem me visitar. Dizem que até já fizeram um roteiro da viagem aos EUA. Até hoje estou esperando por eles. Já recebi familiares mas estou buscando uma maneira das visitas passarem a ser prazeirosas e frequentes. Irmã n. 2 graduou e se internou nas aulas de francês para enfrentar uma pós na França. Nem por um minuto ela considerou aplicar para uma pós nos EUA. Não tiro a razão dela não apesar de querer muito eles mais perto da minha vidinha daqui. Eu sei que ficou tão fora de moda falar mal dos EUA - é como chutar cachorro morto. Obama perdeu o trem da História e os conservadores tão cada vez mais insanos. Eu sei que o país não tem mais apelo nem para os ilegais nem para os legais. Não tem mais o apelo de antes da quebradeira.

Enfim, meu marido colocou a tv Globo assim que eu cheguei aqui. Disse que era para eu não sentir muita falta do meu país. O detalhe é que eu não via tv nem lá no BR. Foi uma forma tão carinhosa dele dizer que estava firme comigo na minha adaptação. E tem o inverno. O maior medo de Biddle era de que eu desistiria de morar no IL por causa do inverno rigoroso. Eu já passei 3 invernos aqui e muita gente ficou impressionada de como eu me comportei sem maiores problemas. Não é só olhar o céu negro, montes de neve, nevascas e um frio inacreditavel, é também vivenciar ter de morar em um local que escurece as 4 da tarde e te põe numa depressão miserável. Homesick? Eu sou familiarizada com o termo.

Eu não tenho um balanço positivo desses 3 anos por aqui. Eu acho que eu deveria ter feito mais, muito mais. Mas como dizem por aí, eu sou muito severa comigo mesma. Biddle diz que eu já fiz amigos, dou minhas voltas e resolvo problemas cotidianos, e tirei a carta de motorista de primeira e em outra lingua. Eu vejo as agruras da Luciana se adaptando a França e sei qual é o gostinho de fazer coisas pequenas em outro país e ser assim, uma grande vitória. É uma vitória. Algumas pessoas não estão preparadas para o desafio que é morar no exterior. Muitas mulheres vão para o país do esposo - você vê uma relação de poder aqui? Eu também - pela primeira vez após o casamento. Pessoas que nunca lidaram com temperaturas baixíssimas e as mil e uma diferenças culturais, se vem de repente tendo que se virar em um país estranho com lingua idem. Quem vem aos EUA com visto de noiva não está autorizada a trabalhar e quem já vem casada pode trabalhar mas não pense você que a pessoa vai desenvolver a mesma atividade exercida no país de origem. Vai sobrar, talvez nessa bad economy, uma vaguinha no fast food da vida. E isso não é anormal. Faz sentindo você chegar para morar em outro país e começar 'de baixo' a organizar sua vida. É necessário mais estudos e licenças para quem é da area de ciências médicas, por exemplo. Até para ser manicure é necessário ter o curso e ter - pagar a licença. Os EUA são o país das soccer moms - ser mãe 24 horas. É mais barato ser motorista dos filhos do que colocá-los no daycare CARÍSSIMOS e ir trabalhar e levar a carreira adiante. Das milhões de coisas que precisam ser arrumadas urgentemente neste país, 1 marca profundamente a vida de uma mulher - as políticas para a mãe que trabalha não existem. Não existe nada público. Nem Saúde e nem creches. Ensino superior também é pago. Estou falando de como a maternidade encurta a carreira de uma mulher mas a Simone, aquela linda, já cantou essa pedra brilhantemente lá quando o feminismo nasceu. Então tudo que vou falar por aqui vai ser meio whiskas, sachês.

Eu uso muito o exemplo daquela moça que casou com um americano e teve de ir morar na feíssima New Jersey.. A Bianchi era rica, bem nascida ( redundância!)e fazia parte da sociedade dourada carioca. Daí ela casa com um americano e vai ser professora de crianças nos EUA enquanto o marido cuida do filho e da casa. Ela só aguentaria viver o casamento, em uma realidade tão distante da dela no BR, fazendo um esforço de superação gigante. Mas ela não estava afim. Ela preferiu sequestrar o filho e se mandar para o BR. O que ela fez foi covarde e cruel mas eu só usei o exemplo para dizer que quando a gente não passa fome no nosso país de origem, muitas vezes dá vontade de jogar tudo para o alto e ir de vez de volta para casa. Daí você cria coragem e põe na cabeça que você tem de fazer disso aqui a sua casa. Ponto.

15 comentários:

  1. Acho que o que faz realmente a diferença é a pessoa gostar do lugar onde está.Se a pessoa não tem a menor afinidade com o novo país realmente fica muito difícil.

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  2. Eu acho você super corajosa, Mari. E tão lindo Biddle ter assinado a Globo. Daqueles pequenos gestos que esquentam o coração pra vida toda. Tanta gente pensa que é fácil viver a vida alheia - julga pela aparência, sem saber do dia a dia, dos detalhes, dos empecilhos. Adorei teu post de exilada e te admiro demais.

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  3. E é impressionante que você consiga escrever um post tão equilibrado, verdadeiro e intenso. Cada linha me trouxe uma série de angústias e uma enorme admiração.

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  4. Fazer mimimi de vez enquando é tão bom!
    Um abraço apertado.
    bjs
    Jussara
    PS: mas eu quero mesmo ir para a Europa, a passeio.

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  5. enfim um post lúcido sobre a vida de mulher expatriada. achei corajoso da sua parte assumir as posições que você apontou no post e assim como a Tina, admiro você por essa capacidade de se esforçar, de ir além.
    e obrigada por me lembrar de Simone, a linda.

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  6. vei, soh entende quem vive. ponto. galera tem uma viagem de que, pelo fato de voce ta vivendo "no estrangeiro", num pais rico, tudo eh uma maravilha. tudo eh lindo e voce vive uma vida de luxo. porra nenhuma.

    eu tava pensando justamente sobre essas coisas nesses ultimos dias. tem epoca que eu tou de boa, que eu nem lembro que eu nao sou daqui. mas tem momentos (e sao a maioria) em que eu penso "alguem me tire daqui". (fiquei com lagrima nos olhos soh de escrever isso!).

    ai, agora bateu aquela vontade de escrever sobre. desculpaê, vou te roubar a ideia e a reflexao :)

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  7. posso comentar que é EXATAMENTE isso que estou sentindo hoje e que é um certo alívio ler teu texto?! prontofalei

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  8. Obrigada pelos comentários, moças bonitas!

    Luciana, escreva, escreva! Tô esperando para ler.

    Tina, obrigada pela palavras. Todas as palavras!
    Verônica, obrigada, obrigada!
    Aline, parece balde de água fria né, mas tem de ser falado.
    Raiza, ainda bem que gosto de Chicago. É uma cidade incrivel e talz, senão tava mais danado. imagine eu morando nos cafundós do Kansas.
    Borbs, te amo!
    Jussara, tô louca para ir a Europa também. Abração!

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  9. Expatriada sofre!
    Voce mencionou algo be interessante sobre as mulheres espalhadas pelo mundo afora na terssa de seus maridos...as vezes por opcao ou por obrigacao ( a parte mais triste). Sim temos a opcao de poder ir e vir, e no nosso caso a opcao de vir. Mesmo tendo essas opcoes, concordo contigo e dificil, bem dificil. As vezes nao se pensa muito no assunto e fica mais facil.
    Entao se comemora 3 anos de reflexoes mais do que celebracoes. As vezes me pergunto se os esposos valem todo o sacrificio que passamos ao largar gato, cachorro, sonhos, vida para tras e se eles seriam capaz de fazer o mesmo. No meu caso eu que a resposta e sim, mas infelizmente no caso de muitas a resposta e outra.
    Daqui ha 3 anos serao outras reflexoes. Espero que as coisas melhorem nos proximos 3 anos ou nao. Talvez esse barco nao seja pra voce, pra mim ou pra muitas outras. E se nao for tem uma tonelada de barquinhos por ai.

    Abracao!

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  10. Senti a angustia nas suas palavras. Se te da algum conforto, deixa eu te dizer que melhora.
    Melhora porque a tendencia e' voce criar uma comunidade onde mora, e tres anos e' muito pouco pra isso em qualquer lugar do mundo. Melhora porque daqui a algum tempo, quando voce tiver com sua pegada forte nos estudos, quando voce se formar, nao e' a sua nacionalidade que vai chamar mais a atencao as vistas dos outros. Melhora porque voce vai criando lacos nunca antes imaginados, especialmente porque voce tem um filho americano, ele vai te ensinar muitas coisas.
    Mas, acima de tudo, melhorou pra mim quando eu descobri que, apesar de tudo que se fala desse pais, e' aqui onde eu me sinto a vontade pra ser eu mesma. E' aqui que meu estilo de vida e minhas opinioes nao interessam a fofoca de ninguem, e onde eu sou respeitada pelas minhas escolhas mais do que no meu pais.
    Eu tambem nao queria morar aqui, tambem nao queria gostar daqui. Mas eu vivo melhor aqui do que la. E, quanto a familia nao visitar, vai doer sempre, mas vai doer menos.
    Eu me lembro tanto dos tres anos, pra mim foram os mais dificeis. Quando a neve tiver batendo no pescoco, grita, eu te dou meu numero e a gente abre uma garrafa de vinho (cada) pelo telefone.

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  11. O Luiz tem uma amiga médica que trabalhava com ele e ela foi com o marido e o filho de volta pros EUA. De volta, porque eles tinham passado uns 2 anos lá e voltaram, e nesse meio tempo o filho deles nasceu lá. O marido foi com um empregão, o menino adorou a escola, só pra ela que as coisas foram muito difíceis. O diploma de medicina dela não valia nada. São tantos papéis, tantos outros cursos, tudo passando a mensagem de "não temos vaga pra você aqui". Parece que agora ela começou do zero e vai fazer massagem. Anos ela querendo voltar e sem poder, porque a família ficou bem lá.

    É de uma inveja imensa e de estreiteza de pensamento julgar que quem está longe está bem, quem não trabalha está bem, quem é dona de casa está bem e tantas outras coisas. Hello que as pessoas são mais do que rótulos? Eu nunca me perguntei se você foi aí pra casar, pra estudar ou trabalhar igual chicana. Pra mim, você sempre foi uma mulher muito inteligente, bonita, espirituosa e que procura viver na melhor maneira possível. E continua sendo.

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  12. Firmeza define, amiga. E assim como as outras meninas já disseram, angústia também. Eu posso fazer alguma coisa?! :(
    Eu tenho aprendido, ainda que na base da "porrada" não literal, que tudo passa e que o que fica nos torna melhores, mais fortes de alguma forma.
    Três anos já se passaram e olhe onde você está... Olhe o quanto já aguentou. Seus ombros são mais largos do que você pensa.

    Admiração por você... também define.

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  13. Segura na minha mao, Carla! Vai rolar vinho via Skype.

    Beijos e obrigada pela visitas, meninas fofas do meu coracao.

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  14. Queria so dizer que vou me meter na conversa apenas para dizer que amei o post, e concordo 100% com a Carla!!!

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