segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Celebration of Life

Por onde começar?

Talvez dizendo que minha cunhada morreu na terça feira as 2 horas da tarde. Em casa, junto com os pais e meu marido.

Eu estava tendo aula e meu marido me avisou assim que a aula acabou. Quando eu liguei para minha sogra ela pediu para eu avisar os amigos. Eu Facebooquei um monte de gente pedindo para eles me ligarem. Foi a primeira notícia desse porte que eu dei na vida.

Amigos baixaram em peso na minha casa com a receita para dizer que sentia muito pela nossa perda - whisky. Já era noite a gente continuava bebendo e conversando sobre ela. Aqui tem um fenomeno interessante - as pessoas trazem comida e bebida para a casa da gente. Tudo vira festa americana.

Um dia após Christy partir, minha sogra me mandou uma mensagem dizendo que estava separando as coisas da filha e queria que eu fosse a primeira a escolher algo para mim. Eu perguntei quando que ela pretendia fazer isso e ela respondeu 'agora!'. E eu fui para a casa dela para perguntar se não era muito precoce ela já ta tirando as coisas da filha da casa, doando parte para a caridade e o resto para os amigos. Aí eu vi as fotos de Christy todas cobertas. Aquela mãe tava tentando me dizer 'olha, não dou conta nem de olhar uma fotografia dela. Quando eu voltar do Colorado não quero nada dela aqui'. Então eu resolvi quardar algumas coisas porque talvez minha sogra um dia queira de volta. Ironicamente eu estava interessada nos livros mas esses, estão trancados em uma storage room e ela não deixou chaves para abri-lo. Ela não deixou senhas idem. Eu pensei tanto na Rita e de como ela enfretou o luto pela morte da mãe. Cada um tem um caminho, né, Rita. O importante é saber que essa dor passará um dia.

Minha sogra separou e organizou as coisas da filha até as 2 da manhã. No outro dia disse a toda a família que ela e Richard iriram dar uma festa em homenagem a Christy. Expliquei para minha amiga que seria uma espécie de festa e ela deu nome - é uma Celebration of Life. Gostei mais dessa definição. As cinzas dela serão jogadas nas montanhas do Colorado. Era o lugar preferido dela neste mundo todo.

Então ficou assim - minha sogra entre risos e choros, limpando, organizando, e evitando ver fotos de Christy. Meu marido me abrançando e dando aqueles suspiros profundos sem dizer uma única palavra. Eu tive a ressaca moral dois dias depois dela ter ido embora. Era igual a uma ressaca e todo meu corpo doia. Uma alergia me atacou porque eu passei o dia sem comer. No outro dia sogra e sogro fariam 39 anos de casados. Daí um anjo passou aqui em casa e deixou uma lasanha gigante, pães, morangos e como ela disse 'the important stuff' , vinho. Comprei uns cupcakes e levei tudo isso pra casa da sogra para jantar com eles. Ah, o anjo também ficou com meu filho o dia todo e eu pude limpar, limpar, limpar, ficar exausta e não pensar em nada.

Ontem todo o esforço no estilo 'Do it yourself ' que eu tanto admiro nos EUA, veio a tona. O dia estava belíssimo e 'Man, those Americans know how to make a party!. Eu fiquei incumbida de passar o aspirador de pó pois, não sei decorar e não sei fazer sobremesas. Não deu para ter acesso as pinturas dela pois quase todas ainda estão trancadas na storage room e precisa de documentos legais para abrir. Idem para os livros. Essa é a explicação do porque colocamos livros tosquinhos na mesa feita em homenagem a ela. Se não tem Charles Bukowski, serve Elizabeth Gilbert.

A festa foi linda e tinha mais de 200 pessoas. Os professores da época da faculdade vieram homenageá-la. O County trouxe a caminhão que ela dirigiu tirando neve das estradas. Ah, gente, uma pessoa que enche um lugar de alegria só com a presença, tem muito amigos. Sogro e sogra demoraram para chegar a mesa da comida. A cada passao alguém os parava, abraçava, conversava.

Eu fiz maquiagem para aguentar o verão ou seja, só blush e máscara e prometi que não ia chorar. Quando eles começaram a ler poesias para ela, meu rosto parecia uma rosca zumbi de padaria. Eu queria manter o prumo mas não deu.

Nessa despedida não teve padre, igreja, pastor e nem amigo puxando corrente de orações. Foi do jeitinho que ela gostaria. Foi do jeito dela. A todo momento alguém falava ' se ela estivesse aqui isso estaria assim, assim e assim...'.

13 comentários:

  1. Nunca é fácil lidar com uma situação dessas. Não há fórmulas. Também enfrentei essa situação com a morte de mamis, há quase dois anos. Porém, asseguro, a força de amigos, seja como for, sempre acalenta! :)

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  2. Que triste e que lindo tudo isso. Um abraço bem forte em você.

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  3. Gostei muito da Celebração da Vida. Cada um tem seu jeito de lidar com a perda e reorganizar o sentir. O importante é permitir-se, né?
    Beijos, querida, cê sabe, não sabe?

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  4. Minha querida! Tenho poucas palavras diante de td isso, mas sinta-se abraçada, muito, muito, muito abraçada. Você e todos aí. Sinto muito, muito mesmo.

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  5. Estou encantada com essa forma de despedidae com sua família americana. É o que a gente vê nos filmes e muitos criticam - 'nossa, eles fazem festa' (uma cena particularmente tocante está no filme O Reencontro). Mas aqui pelo interior tem muito isso de "beber o morto" (desculpa a grosseria, mas é como chamam mesmo). Já contei no blog uma história dessas. Até hoje não tive a oportunidade de viver o luto pelas minhas pessoas mais queridas que se foram (avós, pai), você bem sabe como é, a tristeza de estar longe, por pior que seja o ritual de velório. A sua sogra me lembrou muito minha avó, que viajou em seguida ao falecimento de uma tia que não conheci, qd ela era mocinha. Enquanto estava em Minas, meu vô, mãe e irmãs mudaram a casa toda para que ela pudesse superar as lembranças, move on. É tudo muito triste mas tua família é forte.

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  6. ô, Mary, toma aqui o meu abraço sentido e demorado.
    E um beijo.
    Helê

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  7. Mari, me comovi muitíssimo com seu post, com a história da sua cunhada e como todos aí estão lidando com a perda. Lindo e triste. E vamos celebrar sempre a vida. :-)

    Beijo e abraço apertado.

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  8. Poxa vida! Que maneira tão bonita de se despedir de alguém que já não está mais aqui em matéria. Eu, se estivesse aí, Mari, não teria me contido também. Ao mesmo tempo que é alegre, é emocionante, mas também é triste quando vem o: "Se ela estivesse aqui..." /até me arrepiei agora.
    De verdade, lindo demais... =/

    E você, ein?! Cadê vez mais faz jus à mulher que é: de sucesso e de força. Eu te admiro.

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  9. Tina, coincidencia danada pq quando estavamos bebendo no deck, eu tava contando para marido sobre o 'beber o morto' que ainda se usa na Bahia, la pelo interior. Mais cedo eu tinha falado com um amigo no FB que e' antropologo, sobre o ritual Bororo da morte e o livro a A Morte e' Uma Festa. Tirando toda essa assespsia das casas funerarias da modernidade, esse tipo de leitura e' meio que um alento para mim.

    Amigas, obrigada por todos os abracos apertados. Voces sao tao carinhosas.

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  10. Celebrar a vida sempre vale a pena...principalmente a vida daqueles que nos deixaram ficar melhores, mesmo sem eles...Viva a vida, Mari!

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  11. Um abraço apertado e um beijo carinhoso.
    Jussara

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  12. Sabe, Mari, eu ate acho bonita essa coisa, essa forma dos americanos dizerem adeus aos seus, mas nao eh pra mim. Talvez ainda esteja impregnado na minha alma, no meu amago, o luto como forma de sofrimento - calado ou gritante, nao importa. Quando meu sogro morreu, eu fiquei " chocada " com tanta alegria, com tanta comida, com tanta festa. Mas, cada um tem o seu jeito de expressar - ou nao! - a dor, a perda. Eu respeito isso.
    Tudo o que eu sei eh que a dor de perder um ente querido, NAO PASSA nunca. Doi sempre e o tempo nao apaga, apenas, ameniza, eu diria.
    As fotos da celebracao, mostraram o quanto ela era querida e, com toda certeza, ela teria gostado de ver aquela multidao falar coisas boas sobre a vida, sobre ela.

    Eu acredito em Deus, mas nao acredito que os bons vao pra o ceu e os ruins pra o inferno. Pra mim, morreu, acabou. O que fica, eh o legado - seja ele qual for - deixado pela pessoa que um dia teve a oportunidade de viver e mostrar o que colheu da vida.

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  13. Bom.. já se passou um tempo, talvez você já nem queira mais falar no assunto, mas passo aqui mais uma vez pra deixar meu carinho pra todos vocês. Eu adorei a idéia da celebração, quando pequena sempre falava pra minha mãe que no meu velório não queria gente chorando, rezando, se lamentando....ultimamente não me lembro de ter tocado no assunto...preciso relembrar o pessoal por aqui. Eu acho que é uma ótima maneira de celebrar a participação de uma pessoa querida em nossas vidas.

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