domingo, 24 de outubro de 2010

Ensinando pelo medo

Qual é o limite entre o tapinha e a surra? Tem como medir a força aplicada quando se desfere um tapa em uma criança? Qual é a medida ideal do castigo físico na infancia? E o contexto em que uma criança é surrada conta?

Perguntas retóricas, eu sei.


Lá no interior o pai manda na mulher e nos filhos. Marx cantou essa pedra faz tempo. Ele linkou sociedade patriarcal e propriedade privada. E na sociedade patriarcal os filhos são 'propriedade' do chefe de familia. Dentro da casa dele é ele quem faz as leis. Ainda é tão comum ouvir pais e mães bradarem que debaixo do meu teto quem manda sou eu.! E mandam mesmo, mandam inclusive a criança cortar o galho com que vai ser surrada. É violência física com uma pitada de tortura. O desafio é convencer essas pessoas de que os filhos não podem receber tapinhas, tapões, chicotadas, coques, surra de taboca, surra de relho, surra de mangueira... (coloque aqui os infidaveis metódos de castigo que você já ouviu falar) - a lista vai ficar imensa. Os castigos físicos não educam e deixa sequelas.



Nos Natais, a familia se reúne e ele conta a todos do dia em que sua mãe deu lhe um surra de cinto, a fivela golpeou o saco escrotal e ele gritava que não tinha culpa de ter quebrado o objeto insignificante. Era usual a mãe e pai surrarem eles como forma de 'educar' mas essa surra ele não esquece ou lembra com mais ódio e magoa. Em todos os Natais, ele já adulto, conta a história como forma punir a mãe pelo remorso. Ela chora, pede desculpas e o drama se arma a mesa mas ela sabe que no próxima Natal o scrip vai ser o mesmo.


Criar uma criança implica muita entrega por parte dos pais blá, blá, blá wiskas sachê. Quando a criança está vivendo a fase conhecida aqui como os terrible twos, é necessário cantar até um mantra se for possível para não perder o controle. Em algumas sociedades indigenas brasileiras, os pais param a conversa com outro adulto por uns minutinhos para atender o pedido de um filho. E eles exigem atenção o tempo todo. Não dá para gritar, fazer bico, xingar, fingir que não é com você toda vez que a criança pedir atenção. Pode ser sério, pode ser somente manha mas ela quer atenção e ponto. E dizem que quando elas crescem o trabalho é dobrado. Daí.

A Super Nanny, aquela da tv, nunca trabalha com a idéia de aplicar violência fisica nas crianças como meio de educá-las. Pelo contrário, o que a gente mais vê nos programas são casos de pais e mães que usam violencia fisica e são completamente fracassados e não tem controle nenhum sobre os filhos. São lares completamente doentes. E lá vai a Super Nanny ensinar o óbvio para os adultozinhos: tapa não educa. Eu gosto desse programa. Pode parecer simplista e é mas a Super Nanny deixa bem claro que o medo não ensina nada.

4 comentários:

  1. Já dei palmadas e me arrependo. Tremenda idiotice. E a ironia é que a Nina era menor. Tenho ódio de mim por ter caído nessa. Não foram muitas vezes, mas suficientes pra fazer mal pras duas. A Humanidade, por mim representada, é ridícula e contraditória mesmo.

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  2. olha, se surra fizesse a gente ter respeito pelo pai, o meu seria o homem mais respeitado da face da terra. mas tudo o que ele conseguiu foi uma filha que acha muito pouco um oceano de distancia entre ela e ele. rancor fez morada aqu

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  3. Ai Mari! Seu poste de hoje me fez lembrar a apresentação de uma colega minha justamente sobre agressão infantil. Não me sai da cabeça o slide com as fotos de crianças queimadas, torturadas de todas as formas. Uma das fotos, o bumbum da criança tinha queimaduras de terceiro grau, porque a mãe se irritou e ferveu água e colocou a criança dentro como castigo. Coisa hedionda mesmo, sabe?! Aquilo me causou uma dor tão grande... Eu não entendo como alguém tem essa capacidade. Como alguém pode ser tão ruim a esse ponto. =\
    Meu pai vivia me prometendo uma surra pra sangrar... Graças a Deus nunca triscou em mim.

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  4. Educar pelo medo pode criar duas coisas: um filho com medo de tudo nessa vida ou um filho que sabe que a dor do tapa e' passageira, mas o prazer de fazer a coisa "errada" e' duradouro. Eu fui na segunda opcao, e dizia na cara da minha mae que ela podia me bater, eu ja tinha ido e voltado da festa, ou ja tinha comido todo o bolo antes das visitas, etc.
    Hoje eu transformei as surras que tomei em algo positivo: julgo por mim mesma as consequencias do que faço, avalio se vai "doer" muito, e faço. Nao tenho medo.
    Quanto as partes envolvidas nas surras que eu tomava, descobri que a mais fraca era ela e nao eu.

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