domingo, 19 de setembro de 2010

9 coisas ou

9 random and weird things about me (!)

Daí que eu tenho de contar 9 coisas sobre mim. A Iara quis repassar esse meme para as pessoas que comentam no blog dela. Eu sou uma dessas pessoas. O problema é que eu não tenho 9 coisas para contar lindamente como fez a Iara. Fiquei pensando em falar sobre os trabalhos que tive mas, eles não chegam a 9. Também pensei em falar sobre os lugares em que morei mas, eles também não alcançam o número 9. Daí que comecei a ficar deprê com a vida aguada que vivi até aqui e pensei até em contar sobre 9 namorados que eu tive. Mas eles não valem a pena. Daí voltei ao normal e pedi uma opinião ao marido. Ele sugeriu que contasse sobre as 9 cidades brasileiras que eu amo de coração. Eu retruquei que falar sobre isso é chato demaiiiis. Então ele sugeriu que eu falasse de 9 coisas que eu gosto muito. Como eu também não gostei dessa idéia, ele desistiu de mim não sem antes sugerir que eu escrevesse sobre os 9 estados de chatice que eu consigo alcançar.

Que eu não sei usar as virgulas os deuses e vocês sabem então, resolvi contar 9 coisas aleatórias sobre a minha pessoa. Senta que lá vem drama e vírgulas fora do lugar.

1) Sou 5 anos mais velha que meu marido. Não faço a Glória Maria e revelo minha idade sem problema. Não vou revelar aqui que não vem ao caso. Mas lá no fundo eu sei que sou tão confortável com esse assunto porquê tenho a genética privilegiada e não aparento a idade que tenho.

2) Eu passei a infancia na fazenda dos meus pais. Sou a mais velha de 4 meninas. Fui tomboy mas também brinquei de bonecas. Aprendi a nadar em rio, sei montar a cavalo e mais importante - sei selar um cavalo. Esse local não pertence mais a minha familia. O solo é muito pobre e como dizia meu ex-professor de Geografia - "meninos, não se casem com as meninas da região das 3 fronteiras (Goiás, Bahia e Tocantis)porque lá só tem pedra. Menina rica do interior vocês encontram na região de Rio Verde e Jataí (Sul de Goiás)onde o solo é vermelho e de boa qualidade." Viram como se ensina geografia porcamente e alimenta preconceitos? Então...

3) Eu sou atéia mas rezava terços e ladainhas quando era menina. Meu pai me colocava para rezar em frente aos amigos para me exibir. E eu era bem exibida e nem um pouco timida. Minha avó materna era a rezadeira da região. Ela armava a lapinha no Natal e cantava hinos em latim com uma voz maravilhosa. Declarar-se atéia para minha familia não foi e não é um grande problema. Meu pai jamais pisou em igreja, sempre criticou e arrumou confusão com os padres por causa das mordomias que os moradores eram obrigados a fazer para recebê-los em épocas de Crisma, por exemplo. Mas o ponto fundamental de ninguém ter pego no meu pé por causa da religião foi o fato de eu ter que ir para a capital para estudar. Na época quem podia um pouco mais enviava os filhos para a capital onde o ensino era melhor. Eu morei em Brasilia e terminei o antigo segundo grau lá. Morei com uma tia que tinha coisas mais interessantes para fazer do que me encher a paciência para eu fazer o catecismo.

4) Fui alfabetizada por minha mãe que é professora. Ela deu aulas no antigo Mobral e conta que o único ponto positivo daquela época foi ela ter alfabetizado adultos que são seus amigos até hoje. Quando comecei a ler, lia de tudo como uma viciada. E viciados não tem bom senso para escolher - vai consumindo tudo pela frente. Eu não tinha critérios e lia da revista Manchete (ui, como sou jovem!) a revista Cláudia. Eu li ainda criança A Bicicleta Azul (erotismo inapropriado para a minha idade) que pertencia a minha mãe. Por causa da profissão de minha mãe me tornei leitora voraz e li muita coisa boa e muita porcaria também. Eu lia Reinações de Narizinho no conta gotas. Queria saborear devagarinho cada sentença do livro. Apesar de ler muito, eu era sociável. Não era aqueles mini-adultos pentelhos. Eu acho.

4) Eu gosto de uma label. Gosto de me declarar feminista em alto e bom tom. Gosto de ver as caras torcidas e os olhares enviesados daqueles que abominam a palavra feminismo. Lendo os últimos post da Lola sobre o Concurso de Blogueiras com o tema 'Como nasceu meu feminismo', me perguntei onde raios tinha nascido o meu. Não sei precisar em que época exatamente. Certamente a auto-estima devo ao meu pai que sempre nos achou lindas e maravilhosas e sempre estava orgulhoso das filhas. Um bando de meninas rodeando ele e ele dizendo aos amigos que não, não sentia falta nenhuma de ter um menino. Que as meninas dele eram melhores que qualquer menino. E em uma fazenda em uma casa de meninas ninguém dividiu nosso mundo em rosa e azul e eu coloquei na cabeça que eu podia ser tudo, fazer tudo e usar todas as cores que eu quisesse. Ler me ajudou a visualizar a quantas andava a figura da mulher e eu me posicionei como feminista. Tenho a Simone e a Susan Faludi na minha biblioteca mas nunca me apeguei a essa coisa de que para eu ser do movimento politico denominado de feminismo, eu deveria ler toda a literatura feminista já publicada.

5) Eu prestei 2 vestibulares na minha vida. Passei nos 2. A minha primeira escolha foi fail total. Eu vi a Maria da Conceição Tavares chorar na televisão. Aquela imagem me tocou tão profundamente que eu decidi ali que seria economista. Melhor - decidi que seria a nova Maria da Conceição Tavares. Nem preciso dizer que um decisão baseada em coisas tão passionais não iria dar certo. E não deu. Encontrei meu rumo no segundo vestibular na Universidade Federal de Goiás. Fiz Ciências Socias e foi a melhor coisa que fiz na vida. Me apaixonei pelas disciplinas dentro da disciplina de Antropologia e consegui me graduar.

6) Trabalhei 10 anos na indústria da beleza. Comecei em um salão de beleza como secretária e fui aprendendo e fazendo cursos na área de coloração de cabelos. Trabalhei para a L'Oral, Niasi Risquè e para o O Boticário. Eu tive muitos problemas em organizar dentro da minha cabeça a vaidade e o feminismo. Pela manhã eu era a 'pé de Toddy' andando pelo campus e a tarde estava em um shopping center, no salto demonstrando maquiagem. Era um conflito que só terminou quando eu larguei a área. Hoje eu sei lidar melhor com a vaidade, o consumismo e a alienação.

7) Quando eu tinha 11 anos, corpo de mulher, já tinha tido a primeira menstruação e tentava viver com aquilo tudo, um primo entrou no quarto em que eu dormia e começou me apalpar. Eu acordei e fiquei perguntando porquê que ele estava fazendo aquilo. Eu estava petrificada vendo o cara passar a mão em mim e mandar eu calar a boca, falar baixinho. Ele já estava tirando minha roupa quando eu sai da letargia, da pasmaceira e comecei a gritar. Ele se assustou e começou a ficar violento tentando tapar minha boca. Eu unhei ele num momento em que consegui desvencilhar dele. Ele ria de mim e passava a mão no rosto como se aqueles arranhões fizesse parte do ritual. Como tinha uma festa na casa ao lado, uma amiga resolveu passar em minha casa e viu a cena pela janela e me salvou. Só eu e ela sabemos que meu primo quase me estuprou. A partir desse acontecimento eu fugiu dele mas não contei nada a ninguém. As férias acabaram, eu voltei para a capital para estudar e o tempo passou. Hoje ele é casado com uma mulher muitos anos mais jovem do que ele (além de covarde, cinico, dissimulado ele é super machista do tipo que se refere a mulheres como carne nova ou velha, virgem ou arrombada e filézinho) e tem duas meninas. Já adulta eu fiz questão de me munir de coragem e perguntar para ele como ele se sentiria se um primo tentasse estuprar as filhas dele. Ele ficou me olhando como se eu fosse louca e com sarcasmo disse que aquilo não foi um estupro e nem uma tentativa de estupro. Que eu tinha encorajado ele a me agarrar pois, eu era linda e blá, blá, blá....opa, eu com 11 anos, brincando de amarelinha, lendo gibizinho da Mônica, brincando de Bete tinha seduzido o cínico do meu primo. Eu já contei esse episódio da minha vida em um local onde discutíamos estupro e apenas reproduzi aqui o meu post.

8) Eu tenho uma mãe postiça a quem me refiro como 'mãe número 2'. Minha mãe biológica é uma mulher fantástica mas como eu tive que ir morar na capital com parentes para estudar, fui adotada informalmente pela minha mãe número 2. Ela me ajudou a me reerguer quando eu me encontrava em um momento trash da minha vida. Ela é uma mulher corajosa, inteligentíssima e nem um pouco arrogante. Ela criou uma familia linda e me criou também. É uma advogada com alma de artista. Uma excelente professora de Direito Penal do tipo que gosta de se identificar como educadora e ama o que faz. Foi ela quem me estendeu a mão, quem me deu uma cama, que me mostrou que tinha saída para o entrave em que eu me encontrava, que eu não tinha fracassado e que eu era importante para muita gente.

9) Ainda na infância, tive uma fase de ler obcecadamente sobre sexo. Com livros e revistas que eu lia muitas das vezes as escondidas, fui me pondo a par de um assunto que ainda era tabu em zilhões de familias e não era ensiando nas escolas. Eu me tornei o oráculo da escola quando as meninas começaram a crer que eu sabia tudo do assunto e a me bombardear com dúvidas. Devo ter ensinado tudo errado. Minha mãe que não era boba sempre estava perguntando uma coisa aqui e outra alí como quem não queria nada. Era uma forma dela brincar de amiga da filha e responder as perguntas mais cabeludas sem nos traumatizar.

Fim.

Consegui contar 9 coisas sobre mim. Uma é muito ugly e eu peço desculpas se causei algum desconforto. Eu vou copiar a Iara descaradamente e convidar as amigas que comentam aqui para fazer o meme. :)

18 comentários:

  1. Adorei, perdi o fôlego, com tudo. Volto mais tarde pra comentar de verdade.

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  2. Eu só não entendi essa parte em que você disse que não tem 9 coisas para contar lindamente como fez sua amiga...
    : )

    É uma pena que essa tentativa do seu primo pedófilo já tenha prescrito. Adoraria ir atrás dele e convidá-lo gentilmente a passar uma temporada num presídio onde ele iria, certamente, perder aquele sorriso idiota em questão de segundos.

    Também quase fui vítima de abuso sexual na infância, mas fui salva pelo meu tio que contou tudo para o meu pai e um dos maiores orgulhos que meu pai me deu foi o prazer de saber que o pedófilo foi dado como quase morto quando encontrado.

    Mas, os direitos humanos estão aí, e precisam ser respeitados, né?

    Um beijo, moça.

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  3. O post foi grande mas li de cabo a rabo. rs... Que historia sinistra essa com o seu primo. E pensar que muitas outras meninas passam e passaram por situaçao parecida ou pior, dentro da propria familia, e tudo fica abafado. Nem sei o que eu faria se alguem fizesse isso com uma filha minha. Beijo

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  4. Caríssimas, é a violênica intra muros, né? Dificil de ser provada, dificil de ser combatida. Tem muito predador atacando crianças. Dentro e fora de casa. Dentro e fora da familia. Fico pensando que se eu contasse para minha familia, caso tivesse ocorrido um estupro, eles acreditariam em mim. Mas e aquelas crianças que denunciam o abuso e ninguém crê nelas?

    Tina, volte aqui! :)

    Bjos procês!

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  5. Amiga, sua história tem muito mais de 9 coisas (mini-histórias)!

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  6. Oi, amiga, sim, tenho muitas outras histórias para contar. Mas por muitas delas incluir 'terceiros' eu não posso expo-las aqui. Pensei em contar que não tenho amigas de infancias assim como você (viu! te coloquei na roda) por mudar tanto de cidade por conta de mudanças na familia...enfim, muitas histórias.

    bjs

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  7. Ando tão rebelde com o conceito de amizade, amiga!

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  8. Olha, eu passo por fases super preguiçosas. Leio tudo, mas fico com preguiça de comentar. Mas eu não podia deixar de dizer que gostei de saber mais sobre você. Lamento pelas coisas tristes, curti muito as bacanas, e achei que você contou tudo muito bem. Passava por aqui porque você também passava por lá, mas sabia muito pouco, e agora que sei só um pouco mais, vou ter ainda mais vontade de passar aqui sempre. Beijo!

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  9. Tá vendo só, Mari?! Ficou ótimo o poste. Contou as 9 coisas e muito bem contadas.
    Seu primo, ein?! Que palhaço! Nem vou dizer o que ele merece.

    Beijo!

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  10. Eram para ser somente 9 comentarios ou pode ser mais?
    Bom adjetivos não faltam para o tal primo :X
    Muito bom conhecer um pouco mais sobre você Marimar. Gostei muito do post e não acredito que sua vida seja assim tão boring.
    Bom, agora pensarei em nove coisas para contar sobre minha vida. Quem sabe em 9 dias ou 9 meses terei a resposta :)

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  11. Iara, eu também passo por isso. Se não fosse seu empurrãozinho eu nem teria postado os 9 detalhes sobre mim. Obrigada por passar por aqui.

    Glória, eu quase deletei essa parte em que falo do parente que tentou abusar de mim mas, resolvi deixar apesar de ter ofuscado as coisas legais que aconteceram comigo. Uma pena!

    Keyla, conte-nos tudo e não nos esconda nada! bjkas procês!

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  12. nossa, adorei teu perfil! adorei o blog, e olha que eu soh vi esse post hahaha comecou por bourdieu. tou tentando entender o que eh capital cultural, hehehe mas como os textos sao em frances (entrei na faculdade aqui em lyon essa semana), eu nao avanço. ate porque as unicas coisas que li ate agora foram "wikipedia" e um artiguinho aih. tah foda. mas entao... achei legal a coincidencia! (ah, se tiver algo pra me indicar, pelo amor de cristo, ajude essa alma)

    tambem tou afim de fazer esse meme da iara. espero que ache algo interessante pra falar :)

    beijos!

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  13. Caso me esqueçam, seguinte - vc já começou com Bourdieu? Logo de cara? É brabo! rsrsrs. Eu coloquei essa frase do Burda (Bourdieu pros intimos) aqui no blog porque eu sou sem noção. Só tem essa frase super do Burda e o resto é preenchido com as minhas neuras diárias.

    Mas tu pediu ajuda então vamo lá. Porque vc não começa lendo os comentadores da obra do Bourdieu? Por exemplo, vc pode ler o Renato Ortiz que é comentador do cara. Tem chances de alguém te enviar As Regras da Arte - do Bourdieu- em português para vc? Outro paper que o Bourdieu explica o conceito de capital cultural é A Economia das Trocas Simbólicas. Minha amiga disse que foi lançado recentemente a coleção Figuras do Saber e que o Bourdieu ta lá todinho. Ajudei?

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  14. Caso, conhece a revista de CS eletronica chamada Scielo? É essa aqui - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702004000100007

    Vai te ajudar demais...bjkas

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  15. Poxa, eu queria conseguir escrever um 9coisas bonito assim! Tô emocionada. Sua coragem e sensibilidade me tocaram fundo.
    LINDO!

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  16. Muito bom Mari! Fazia tempo que não passava por aqui devido essa correria de vida de universitária pobre hehe...Mas cada vez eu me surpreendo mais com o que leio em seu blog. Gostei desse post e da sua firmeza em falar sobre "tais" assuntos. É isso que admiro em vc, essa coragem que muitas não tem.
    Bjinhosss

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  17. Mulher Maravilha e Bruna - obrigada pela visita e por favor, quero ler 9 coisas sobre vocês!

    Bjkas!

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  18. Ai Mari!!! Também não sei usar vírgula!!KKKK (tô correndo,depois volto...)Bj.

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