domingo, 25 de julho de 2010

A historia que me aterrorizou

Eu leio o blog da Tina a muito tempo e lembro dela postar uma historia que a aterrorizou. Eu comecei a pensar em postar a historia que me aterrorizou e me aterroriza ate' hoje.

Eu morava em Goiania e trabalhava como consultora de beleza para a Niasi - Risque' quando fui chamada ao telefone. Era da delegacia da mulher em Goiania. A irma de uma amiga estava la fazendo uma ocorrencia ou coisa assim. A delegada pediu que eu fosse pegar a Elenice - vou chama-la assim - para levar ao IML mas antes teriamos de ir ao Hospital Materno Infantil para ela ver se o bebe que ela carregava no ventre ainda estava vivo. Isso foi despejado sobre mim assim, por telefone e sem que desse muito tempo para eu pensar. A Elenice conheceu esse homem havia uns dois anos. Eles passaram a morar juntos na casa dela. A familia dela morava no interior e somente a irma tinha conhecido o cara. Ele era um bebado inveterado. A minha amiga me contou que a primeira imagem que viu dele foi de um homem que mal conseguia segurar o prato de comida que a Elenice colocara na mao dele. Ela era e e' de familia dessas que andam direitinho. Gente muito esforcada e focada. Eles perceberam que o cara nao prestava nem um tiquinho. Quando eles chamaram a Elenice a realidade e se posicionaram a respeito do relacionamento, ela ja' estava cega demais para perceber em que tipo de relacionamento tinha se metido.

O cara era louco por dinheiro mas percebeu que nao podia ficar perto da familia da Elenice e aprontar. Entao eles se mudaram para um barraco no interior de Goias. Itapaci. De la ela ligava para os pais e pedia dinheiro. Nao falava onde estava e dizia que estava super feliz. Dizia tambem que estava gravida.

Eu ja tinha me esquecido de que ela tinha se mudado para Itapaci quando o telefonema da delegada me colocou de novo no caminho da Elenice. Eu cheguei a delegacia antes da irma dela que tambem fora avisada. Eu estava fazendo uma loja pertinho do centro de Goiania onde fica a delegacia da mulher. Quando eu cheguei la eu vi uma menina bem magra. O cabelo estava amarrado com um trapo e os fios quebrados da fronte estava espetados e sujos. Toda ela estava suja. Vestia um vestidinho de alcas e calcava um par de havaianas comido na traseira. Sabe aquela parte do calcanhar da chinela? Ele nao existia mais. Era bem velha para continuar a existir. Ela estava bem magra e a barriga bem saliente. Parecia uma menina gravida mas o rosto ja estava com as marcas do que ela tinha passado nos ultimos anos. A delegada me instruiu sobre o que fazer no IML e hospital. Disse que a equipe estava esperando. Tivemos de esperar a irma da Elenice chegar a delegacia. Telefonei para uma tia para me arrumar uma grana porque eu ia pagar muito taxi naquela noite.

Quando a irma dela a viu, ela nao chorou. Ela ficou estatica olhando. Ela nao acreditava que aquela pessoa era a irma dela. Era a menina que amava estudar ingles, fazer cadernos diarios e o programa de radio na radio comunitaria? Nao, nao era. Ela tinha escoriacoes no corpo, principalmente nas costas. O pulso dela fora cortado com faca de mesa daquela de pao. Foi em uma noite em que o pai do filho dela tentou assassina-la. Ela estava muito machucada. Mas ela parecia aliviada de estar ali. Eu nao sei se era aliviada ou ela ja tinha chegado a um grau de dor tao grande que ela nao tinha mais emocao no rosto.

Eu peguei os pertences dela e coloquei no taxi. Era uma caixa de papelao com alguns trapos de roupa.

No caminho para o hospital ela contou que conseguiu sair do barraco onde ele deixava ela trancada comendo somente ovo e foi a rodoviaria da cidade. Pediu carona e eles deram. Na rodoviaria de Goiania ela pediu carona de novo a um taxista. Ela so' tinha 5 reais na mao e com isso ela pagou ele. Ela foi direto para a delegacia da mulher. De la ela pediu para ligar para as 2 pessoas que ela lembrava o numero e que com certeza iria ajuda-la naquele momento.

Eles a examinaram e eu lembro da minha tia ficar tao feliz ao telefone quando eu falei para ela que a crianca estava bem. No IML ela fez o exame resignada. Parecia estar ligada no automatico. Eu fui com ela ate' a casa da minha amiga. La vi minha amiga dar banho nela e eu olhar mortificada as marcas da agressao no corpo todo. Velhas e novas. Minha amiga jogou todos os trapos dela no lixo e penteou o cabelo dela.

Ela tinha um encaminhamento para ir ao postinho de saude e fazer o pre'-natal. Podem falar o que quiserem do sistema de saude publico brasileiro mas ali, no setor Itatiaia em Goiania, Elenice recebeu tratamento psicologico, uma dieta balanceada e um grupo de apoio alem de todo o pre'-natal. A crianca nasceu saudavel e ela foi para a casa dos pais morar com eles.

Ela disse para mim que tinha fracassado. Eu nao tinha palavras para consolar ela. Eu estava muito alarmada com o que tinha visto. Eu passei muito tempo tendo pesadelos e o pai dela passou muito tempo cacando o homem para matar. A sorte desse monstro e' que a familia de Elenice conseguir fazer a cabeca do pai para nao sujar as maos de sangue. Na pesquisa que o pai de Elenice fez descobriu-se que ele ja teria tentado matar uma ex companheira em Brazabrantes tambem no Estado de Goias. Ela ficou aleijada em cadeira de rodas.

Isso aconteceu no inicio de 2003. Essa historia me apavora ate' hoje. Eu lembro da mae da Elenice tocando o rosto e os bracos da filha chorando e se perguntando como se perguntasse a si mesma porque fizeram aquilo com a filha dela. Na ultima visita ao BR perguntei a minha amiga se a irma estava bem. Ela respondeu que a irma nunca mais sorriu.


*Eu conto isso aqui para nao esquecer dos detalhes e registrar que eu ja vi uma vitima de violencia domestica, que eu estive com ela, que eu vi a familia dela destrocada e ela tambem...que eu nunca tinha contado isso para a melhor amiga que fiz naquele ano: Celiana.

** A Celiana estava conversando comigo no MSN dizendo que teve pesadelos com a morte brutal da Eliza Samudio e ai eu comecei a contar a historia de Elenice. Tai, amiga, foi assim que aconteceu.

12 comentários:

  1. É... a ficção não se compara com a realidade, amiga.

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  2. Ai, que história mais triste, Mari. Tenho muito medo.

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  3. Eu já vi muitas;não eram minhas conhecidas ou amigas,mas doeu assim mesmo;ainda dói pra falar a verdade quando lembro que até pouco tempo atrás eu fazia parte do sistema de segurança que não protege a mulher vítima,mesmo sabendo que sempre fiz a minha parte com decência e amor.

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  4. Que história triste! Pelo menos sua amiga contou com o apoio das amigas e da família para se livrar do monstro que a agredia e atendia por marido. Algumas permanecem casadas perpetuando o ciclo de violência que não raramente se extende para os filhos e para os filhos destes. Violência contra a mulher é uma coisa que me faz perder o sono também. Legal você ter feito esse relato. Abraço

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  5. Dói demais ler isso. E fico sem palavras... Tão triste... :-(

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  6. É uma história triste e real, infelizmente. Adorei seu blog, tá add na minha lista.
    Abs

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  7. Tão triste. Faltam até as palavras...

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  8. Nossa que historia triste. As palavras me faltam tambem.

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  9. Minha irmã passou por algo parecido. Não a esse ponto, mas ela sofreu violência e teve que sair da casa onde morava com o desgraçado com as crianças e só com a roupa do corpo. Eu digo, é a coisa mais triste de se ver. Por sorte ela reconstruiu a vida, está feliz. Que pena a Elenice ter perdido a alegria de viver tão jovem.

    Cris

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  10. Realmente muito triste, não podemos confiar em mais ninguém. Tenho tanto medo disso...
    Eu vou te add no meu blog tbm.

    http://brurobiati.wordpress.com/

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